a dúvida, a tristeza ou o mal-estar.

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
Uma semana pesada essa. As tensões desses últimos dias me fizeram pensar sobre minha última decisão. Uma dessas doloridas, que rasgam o peito. Mas que, aos meus olhos, me mostra bem madura. Pra que prolongar uma dor, se o fim já é sabido. Cheguei a questionar minha decisão de silêncio e distância, tive vontade de falar, de contar como têm sido os meus dias, os meus sonhos. Falar das minhas aflições, da saudade que já tenho dos meus alunos, mostrar o cartão lindo que recebi de um dos meus queridos. De olhar nos olhos e abraçar bastante. É até onde eu posso ir. Só que quero mais que isso. Aí, é maquiar um olho roxo. Satisfaz a vontade imediata, mas o dia seguinte é sempre pior. É, o silêncio e a distância permanecem. Estou bem assim. Trato isso como um vício. Sei que cada dia é um dia, e cada dia é uma nova oportunidade de enfiar o pé na jaca de novo. Ou uma nova oportunidade de fazer diferente e manter o coração na linha. Sabe, o universo se encarrega de me proteger. No dia mais difícil, o ápice da vontade de fazer contato, os duendes levaram meu celular. Tenho bons guias. Hoje, pensando ainda sobre isso, questinei essa amizade, possível? Ainda não. Uma amizade cheia de limites? Não me serve. Não sou bem vinda nos eventos sociais, e ainda vem a tentativa de esconder de mim que eles existem. Nunca seria convidada. E as mentiras continuariam, as desculpas esfarrapadas seriam as mesmas. Que tipo de amizade é essa? Não teve força pra assumir um amor, não teria força pra assumir uma amizade. E eu continuaria em segundo plano. É a mesma relação, só muda o nome. Seria uma amizade velada e escondida. Não, obrigada. Pros meus amigos eu ligo aos sábados e domingos e chamo pra almoçar ou tomar um sorvete no fim de tarde. Ligo de madrugada se estou chateada ou precisando conversar. Ligo a qualquer momento se tenho saudade, só pra saber como estão. Minhas poucas boas amizades não me colocam limites. Não existe mágoa, não existe raiva. É só um momento de luz em que enxergo como seria, e quais frustrações eu teria. Tem carinho, tem amor, mas tem dependência, tipo vício. É dessa dependência que quero me livrar. As escolhas foram feitas, e é isso. Dessa vez eu quero que as coisas sejam do meu jeito , ou nada feito. Chega de migalhas.
A noite/1
Eduardo Galeano
Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora;
mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor